A foto ficou linda, mas foi tirada por um homem que, minutos depois, me assediou

Assédio: quando o medo vai na mala

por: Sylvia Barreto
12 de janeiro 2018

Bota, calça, casaco e cachecol em plena luz do dia. Estava frio naquela tarde de novembro em Paris, eu me vestia de acordo com a temperatura, que estava em uns 10ºC. Nos arredores do Louvre, um rapaz me parou e pediu que eu fizesse uma foto dele, fiz e perguntei se ele podia tirar uma minha. Começamos a conversar, eu já namorava, não tinha nenhum interesse sexual nele. Me contou que era egípcio mas morava na França, estava no dia de folga e ia dar um passeio. Em 5 minutos de conversa, disse para eu desistir de entrar no museu e sair com ele. Eu neguei, me despedi e ele me seguiu, gritava meu nome, vi um segurança e pedi ajuda. Só neste instante o egípcio foi embora.

Sandália, minissaia, blusinha. Era uma madrugada de verão em Buenos Aires, Argentina. Saindo de uma balada sem meus amigos, peguei um táxi sozinha. O motorista começou a conversar comigo, disse que era cubano, homossexual e também fazia massagens. Me apalpou duas vezes durante o caminho, eu não sabia como reagir, estava do outro lado da cidade, precisava chegar em casa e chovia muito. Meu medo era nunca chegar. Mas ele me levou ao meu destino, quando saí do carro, ainda passou a mão na minha bunda.

Estava vestida de acordo com a temperatura em ambos os casos. Leia bem: DE ACORDO COM A TEMPERATURA. Escolhi minhas roupas apenas para me agradar e ficar confortável com o clima. O assédio aconteceu nas duas situações porque, ao contrário do que muitos dizem, roupa não influencia o assédio. Mas a roupa sim foi usada nesta semana para influenciar o mundo contra o assédio. Atrizes de Hollywood foram de preto ao Globo de Ouro 2018, que aconteceu no último domingo (07/01), para levantar a bandeira da campanha Time´s Up, uma forma de dizer que o tempo do assédio acabou.

Como qualquer mulher, atrizes de Hollywood e outras profissionais da indústria cinematográfica já foram vítimas do assédio sexual, seja trabalhando ou não. E elas também estão cientes que, ao redor do mundo, a mulher passa pelo mesmo problema independente de sua profissão. E, se uma mulher já está exposta em sua zona de conforto, imagina quando sai para explorar o mundo sozinha?

Já viajei bastante sem companhia ou apenas com uma amiga mulher. Na maioria dessas viagens fui assediada sexualmente por homens. Aconteceu no Brasil, na Argentina, em Barbados, na Inglaterra e na República Dominicana, só para mencionar alguns lugares. O pior foi o episódio da Argentina no qual o cara, de fato, partiu para o assédio além das palavras.

Em alguns casos, funcionários de hotéis que estavam em horário de trabalho me chamaram para sair e um vendedor de passeios teve a cara de pau de ligar no meu quarto de hotel, sendo que ele sabia o número da acomodação por razões profissionais. Eu não gostei, me senti ofendida, perseguida e invadida em todos os casos mencionados e em outros. Ao contrário da Danuza Leão – que fez um texto achincalhando a atitude das atrizes de Hollywood – eu, e acredito que milhares de mulheres, não preciso de cantadas desagradáveis para ficar com minha autoestima em dia.

Dentre as minhas amigas mulheres, há várias com histórias de assédio em viagens para contar. De homens nunca ouvi nenhum relato. A turista está fora de seu ambiente habitual, sem saber direito os costumes locais e muitas vezes não domina a língua oficial. Logo, é uma mulher que talvez encontre mais dificuldades para fazer uma denúncia e que, se desaparecer em decorrência de um crime, os amigos e a família talvez demorem mais tempo que o habitual para sentir sua falta já ela está longe.

Tem como evitar esse assédio seja em viagem ou na sua cidade? A resposta é sim. Se você for machista talvez ache que é só a mulher “se comportar”. Mas não é nada disso, a maneira de evitar o assédio, para começar, é a conscientização da população. Campanhas como a Time´s Up ajuda, mesmo que lentamente, a fazer a sociedade entender que assédio não é legal, além de ser considerado crime em muitos países. Mostra que as mulheres, sim, podem e devem botar a boca no mundo e em qualquer lugar do mundo se algo acontecer.

Estamos em um retrocesso, em um mundo em que um homem não pode mais fazer um elogio à mulher? Não, ao contrário do que muitas famosas francesas afirmaram em texto no jornal Le Monde, um homem ainda pode elogiar uma mulher ou iniciar uma paquera. Aliás, qualquer pessoa pode elogiar alguém sem interesses sexuais, eu elogio meus amigos homens e mulheres. Iniciar uma paquera? Claro. A pessoa não gostou, pare. O assédio começa onde o limite do outro termina. O egípcio me sugerir deixar de ir ao Louvre para passear com ele não era uma ofensa, porém, começar a me seguir na rua e insistir quando eu já havia dito não, sim, é assédio.

Só de contar os meus episódios já podemos ver que o assédio não é característico apenas de um lugar ou de determinadas nacionalidades. Aos 16 anos eu estava em um hotel no interior de Minas Gerais e um esloveno velho, com quem eu comecei a conversar para treinar meu inglês, tentou me agarrar. Pois era um europeu no Brasil assediando um menor. Então, não, a mulher não está segura em lugar nenhum. Para não ser injusta, vou dizer aqui que me sinto um pouco mais segura nos Estados Unidos e muito segura no Canadá se comparar outros países que já visitei sozinha, mas nem por isso deixo de ficar atenta.

Provavelmente, eu fico muito mais atenta do que qualquer homem quando estou sozinha. Medo de ser assediada, de ser estuprada ou de morrer apenas pelo fato de ser mulher.  Em uma viagem, levo o medo também na mala. Num mundo ideal, eu não deveria me sentir assim, nem outras mulheres. Em nossos países ou em outros deveríamos apenas viver ou passear sem essas preocupações. Assim como os homens. Eu não quero que todos os homens deixem de existir, que sejam banidos. Não, eu quero viver em um mundo sem ter medo dos homens unicamente porque eu sou mulher.

Esse mundo ideal, ou chegar perto dele, só depende de nós mesmos, homens e mulheres. Depende de apoiarmos campanhas, não importa que não sejamos atrizes de Hollywood. Depende de ajudarmos e ouvirmos outras mulheres, depende de ensinarmos aos meninos o que é certo.

Mesmo que a gente não faça nada, que, pelo menos, não tentemos desmoralizar o feminismo ou aqueles que, de algum modo, lutam por essa causa. Eu sempre vou me lembrar das palavras da minha “mãe” de intercâmbio na Argentina, país que sofri meu pior assédio: “Eu ensino meu neto que quando uma mulher diz ‘não’ é não!”


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