Planches: uma verdadeira passarela de novidades da moda no passado - Crédito: Laurent Lachèvre

Deauville: o balneário francês que transformou a moda e é símbolo de elegância

por: Sylvia Barreto
31 de agosto 2025

Aquela clássica camiseta branca com listras azuis, que talvez você tenha no armário sem pensar muito, nasceu no balneário francês de Deauville. Na Normandia, às margens do Canal da Mancha, o destino é refúgio da alta sociedade da França desde o século 19 e diversas criações que ecoam na moda até hoje são de lá.

Deauville, literalmente, cria moda. Logo depois de sua fundação em 1860, começou a atrair a burguesia da capital francesa. Por sua popularidade, ficou conhecida como a 21ª região de Paris – ou arrondissement. Todos iam atraídos por seu cassino, praia e hipódromo.

Desde sua fundação em 1860, Deauville atrai a aristocracia – Crédito: Delphine Barré Lerouxel

Com tanta gente influente circulando, os verões em Deauville transformaram-se em uma passarela a céu aberto, ditando tendências que ecoavam além da França. O turismo borbulhava e os hotéis começaram a surgir. Hoje, a apenas duas horas e meia de Paris de trem, Deauville continua sendo um ícone de sofisticação — um destino onde moda, história e glamour caminham lado a lado.

Deauville: como tudo começou
Deauville é planejada, ao contrário de outras cidades europeias que nasceram das necessidades da população local. Foi fundada em 1860 pelo Duque de Morny – Carlos Morny, meio-irmão do Napoleão III. Tem uma estátua dele por lá.

Seu objetivo era transformar uma região de dunas e pântanos num balneário de luxo, o que ele atingiu atraindo com o cassino, hipódromo e hotéis. Reza a lenda que ele teve essa ideia quando estava na vizinha Trouville-sur-Mer, olhou para a área pantanosa e decidiu fazer dela seu reino da elegância.

Foi muito importante para o sucesso do turismo em Deavuille ter uma estação de trem – Crédito: Sandrine Boyer

O hipódromo foi inaugurado em 1862, seguido pelo cassino, aberto em 1864, que acabou dando lugar a outro algumas décadas depois. Para atrair visitantes, Morny levou uma linha de trem até lá, que existe até hoje e é amplamente usada. Na época, era uma viagem em vagões luxuosos desde Paris.

Em 1912, Deauville ganhou um novo cassino, cuja arquitetura imponente se tornou um dos ícones da cidade. A obra foi conduzida pelo grupo de François André, aristocrata que, nas décadas seguintes, desempenharia papel fundamental no desenvolvimento do turismo local — a ponto de dar nome a uma das praças da cidade. Para a inauguração, que reuniu cerca de 1.500 convidados, o grupo também abriu as portas do Hotel Le Normandy, ainda hoje, um dos endereços mais célebres de Deauville.

O hipódromo sempre atraiu muitos turistas à cidade – Crédito: Sandrine Boyer Engel

Planches: a primeira fashion week
A primeira fashion week como conhecemos atualmente foi a de Nova York, mesmo a de Paris veio depois. Mas, podemos dizer que Deauville tinha sua própria semana – ou meses – de moda.

Ainda no século 19, foi feito o primeiro calçadão da cidade para oferecer um caminho para a praia e o mar sem que os pedestres precisassem percorrer os pântanos ainda não drenados. Em 1921, o então prefeito Eugène Colas lançou um concurso para renovar as cabanas de praia e um novo calçadão de madeira foi construído paralelo ao mar. Ele lembrava os banhos termais de Pompéia e era feito de tábuas de madeira consideradas à prova de podridão.

A especialista em história da moda Laura Wie no famoso deck de madeira – Crédito: Arquivo pessoal

Dessa maneira, nasceu a versão atual das chamadas Planches em 1923. Tornou-se um verdadeiro ponto de encontro. A alta sociedade parisiense estava sempre por lá e aproveitava para vestir suas melhores roupas, os lançamentos dos estilistas. Em poucas horas, um bom observador poderia encontrar todas as tendências da estação nessa verdadeira passarela. Por isso, costuma-se dizer que foi a primeira fashion week.

Na sua viagem por Deauville, obviamente, é um lugar que não pode deixar de visitar. Não apenas porque nela “desfilaram” ícones como Coco Chanel e André Citroën (fundador da montadora que leva seu sobrenome), mas porque com a criação do Festival de Cinema Americano, os nomes de diretores e atores foram inscritos nas placas das cabines de madeira desde 1975. É uma espécie de “Sunset Boulevard” de Hollywood, mas com a elegância francesa. Aliás, o Festival acontece ainda e as celebridades mostram anualmente as criações de estilistas renomados.

Astros do cinema e diretores do Festival Americano de Cinema são homenageados nas Planches – Crédito: ille de Deauville

Coco Chanel, o esporte e as blusinhas listradas de Deauville
A estilista Coco Chanel era uma das frequentadoras apaixonadas por Deauville. Em 1912, abriu sua segunda loja e escolheu a cidade para isso, bem em frente ao cassino. “Foi a primeira de roupas da Chanel, existia uma em Paris, mas era apenas de chapéus”, explica Laura Wie, que é especialista em história da moda, atuou como modelo por anos e fez parte do elenco da peça Mademoiselle Chanel em 2004.

Hoje, a loja do começo do século 20 não existe mais, mas é claro que há outra da marca na cidade, bem mais nova. Aliás, todas as butiques de estilistas do Triângulo de Ouro de Paris estão também no balneário francês.

Coco Chanel lançou coleção de roupas em Deauville em 1913 – Crédito Collection Mairie de Deauville

Em 1913, Chanel lançou uma coleção de roupas esportivas em Deauville. A estilista usou o jérsei, que, na época, era um tecido encontrado apenas para roupas íntimas masculinas, que ela conheceu com seu namorado, Arthur Edward “Boy” Capel. Aliás, foi ele quem apresentou o balneário à Coco Chanel.

Não só o material usado era um marco, mas as mulheres ganharem peças esportivas também. Antes disso, elas usavam roupas pesadas e que não eram adequadas aos movimentos.

Como Deauville tem um porto e era muito frequentada por marinheiros, a estilista inspirou-se no uniforme da marinha francesa para uma de suas peças. Esses homens usavam uma camiseta branca com listras azul-marinho. Assim nasceu a peça de Chanel, completamente baseada no estilo marinière.

Deauville sempre recebeu muitos marinheiros – Crédito: Sandrine Boyer Engel

A blusa foi um sucesso e sua popularidade atravessa gerações. Com o passar dos anos, ganhou novas cores. É comum encontrarmos, por exemplo, camisetas brancas com listras vermelhas incluídas nesse contexto. Aliás, o estilo marinière e tudo que remete ao mar está em alta na moda em 2025. A própria marca Chanel lançou uma pequena coleção com essa tendência ano passado.

Deauville mantém seu charme intacto desde o início do século passado e recentemente a marca Chanel realizou um desfile em Paris cujo cenário fazia uma homenagem ao famoso deck de madeira de Deauville.

A blusa listrada ficou popular com Coco Chanel – Crédito: Chanel

“Em 2024, foi lançada uma campanha da bolsa Chanel 11.12 com Penélope Cruz e Brad Pitt em uma releitura do clássico filme ‘Um Homem, Uma Mulher’, da década de 1960, que se passava em Deauville”, conta Laura para mostrar que a cidade segue na moda.
Deauville inspirou Chanel a fazer uma moda mais prática para as mulheres em contraposição aos exageros fashionistas da Belle Époque.

A estilista também disseminou o estilo “à La Garçonne” na época, que persiste até hoje, com o qual as mulheres se vestem mais parecidas com os homens, incluindo os cortes de cabelo mais curtos. Toda essa atmosfera tinha tudo a ver com uma cidade praiana e chique como Deauville, que exigia conforto e praticidade, mas sem perder a elegância.

Hospede-se em Deauville de maneira confortável e tradicional

Lembra que o dono do icônico cassino de Deauville construiu também um hotel, o Le Normandy? Pois bem, ele é o mais famoso e tradicional do destino. François André não parou por aí e abriu seu segundo hotel na cidade, dessa vez, com campo de golfe, nascia em 1929 o Hotel du Golf com seu próprio campo.

O hotel mais tradicional de Deauville: Le Normandy Barrière

“Em 1962, Lucièn Barrière assume os negócios de seu tio, o François, que havia falecido sem herdeiros. Por isso, o nome atual do grupo é Barrière”, explica Christiane Chabes, representante do Barrière Group no Brasil. Atualmente, só em Deauville são três hotéis: Hotel Barrière Le Royal Deauville, Hotel du Golf e Le Normandy.

Cada um deles tem décadas de existência e carregam tradição e sofisticação. Porém, quem quiser ficar no coração da cidade, em frente ao cassino e perto das lojas, o ideal é hospedar-se no Le Normandy.

O histórico cassino de Deauville também pertence ao grupo Barrière – Crédito: Patrice Le Bris

O icônico hotel também tem vista para a praia e a famosa plataforma de madeira, a Planche. São 271 acomodações, incluindo 40 suítes, sendo sete apartamentos especiais para famílias. Oferece uma área privativa na praia e bar com vista para o mar, além de restaurante e spa. Na cidade, são mais de 20 restaurantes e bares do grupo Barrière.

Em todos esses anos, uma das clientes do Le Normandy foi Laura. “Eu fiquei encantada com o hotel, que mantém a aura refinada de 1912, quando foi aberto. Lá é possível tomar um drinque ou jantar em seus salões mesmo sem estar hospedado”, conta a especialista em história da moda.

Com 3.500 habitantes, Deauville tem boa capacidade para receber visitantes no geral. A cidade tem 2.000 estruturas de acomodação entre hotéis, casas de temporada e outras opções para turistas, incluindo dois hotéis cinco estrelas. São 40 restaurantes, sendo um com estrela Michelin.

Laura Wie nos jardins do Le Normandy – Crédito: Arquivo pessoal

Lugares para explorar em Deauville caminhando ou de bicicleta

A maioria dos turistas parece gostar de explorar Deauville a pé. Mas, há ainda quem prefira conhecê-la caminhando, é o caso da entrevistada Laura. “De bicicleta é possível conhecer tudo, inclusive ir até o hipódromo, além de bonito, é um lugar que era frequentado por Coco Chanel para ver as corridas de polo de seu namorado”, explica.

Seja a pé ou pedalando, veja alguns lugares imperdíveis em Deauville.

Place de Morny
Coração da vida social de Deauville, a Place de Morny é um ponto de encontro vibrante, cercado por cafés, butiques e arquitetura charmosa. É dali que partem muitas das ruas principais, o que a torna perfeita para começar um passeio. Entre uma xícara de café em uma das esplanadas e uma pausa para observar o vai e vem de moradores e visitantes, é fácil entender por que a praça é considerada a alma da cidade.

Place de Morny é considerada o coração da cidade – Crédito: Delphine Barré Lerouxel

Villa Strassburger
Construída em 1907 sobre antigas terras pertencentes à família de Gustave Flaubert, a Villa Strassburger é um ícone da arquitetura anglo-normanda. Rodeada por jardins bem cuidados, a mansão transporta o visitante ao início do século 20, quando Deauville era palco da aristocracia e da alta sociedade parisiense. Caminhar ou pedalar até a vila é como voltar no tempo, explorando uma das joias arquitetônicas que simbolizam a elegância da cidade.

A Villa Strassburger data de 1907 – Crédito: Jean François Lange

Mercados populares e sabores locais
Nada revela melhor a essência de uma cidade do que seus mercados. Em Deauville, os mercados populares oferecem iguarias que traduzem o espírito normando: queijos artesanais, manteiga cremosa, sidras e o famoso calvados, destilado de maçã típico da região. Entre barracas coloridas e aromas irresistíveis, o visitante descobre que a gastronomia local é tão marcante quanto a moda e a sofisticação que consagraram o balneário.

Dois mercados populares que podem ser explorados são os que acontecem na Place du Marché pelas manhãs, é necessário checar horário e dias quando for porque pode variar de acordo com a época do ano. Outra opção é o mercado orgânico nas manhãs de quinta-feira na praça da igreja de Santo Agostinho.

Não deixe de provar os queijos típicos de Deauville – Crédito: Elizabeth Parker

Les Franciscaines
Outro destaque imperdível de Deauville é o projeto Les Franciscaines, que transformou o antigo orfanato Saint-Joseph, fundado pelas Irmãs Franciscanas no século 19, em um vibrante centro cultural. O espaço reúne museu, midiateca e teatro em um só lugar, propondo uma nova forma de vivenciar a cultura: acessível, intergeracional e participativa.

Além de exposições e espetáculos, a programação busca sempre conectar diferentes expressões artísticas, fazendo do visitante não apenas espectador, mas também protagonista da experiência. Com sua arquitetura histórica reinventada, Les Franciscaines simboliza a continuidade entre passado e futuro, preservando a memória local enquanto abre caminho para novas formas de encontro e conhecimento.

Agora que você sabe a história e os atrativos de Deauville, me conta nos comentários se pretende incluir a cidade no seu próximo roteiro pela Europa.

Serviço
Site oficial do turismo da cidade: www.indeauville.fr

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